Ao contrário da Metade Escura da Roda, nem todos os sabates da Metade Clara encontram correspondentes tão evidentes em eventos do calendário cristão. Sendo um tempo de plenitude, de gozar a vida e realizar, a Igreja, por preferir o celibato e a resignação, destilou mais os sabates da Metade Clara antes de incorporá-los modificados às comemorações cristãs. Os dois primeiros sabates da Metade Clara parecem estar combinados em um só período de festivais cristãos, e os dois demais, correspondem a práticas que, apesar de não terem sido oficializadas pela Igreja, foram muito bem recebidas em seu seio.
Em 1º de maio, no hemisfério norte, se comemora Beltane. À noite, as BRUXAS medievais dançavam ao redor de uma fogueira, celebrando o triunfo do dia sobre a noite. O Sol aquece os sentimentos suaves da primavera e os campos começam a ser fertilizados por seu calor. O frio do inverno se tornou apenas uma lembrança e, para se colocar em fase com o momento, absorver as energias da natureza e contribuir com a fertilidade do solo, oferecendo-lhe sua própria energia, casais faziam AMOR nos campos, à luz da Lua, o que levou Beltane a ser um dos sabates mais odiados pela Igreja.
Quando chega o solstício de verão, comemora-se a plenitude do Sol no sabate Litha, pela tradição celta, que nós, da BRUXARIA ancestral chamamos de Festa do Sol. Colhem-se ERVAS e a TERRA oferece suas primeiras colheitas. Tudo é enfeitado com flores e o calor evoca os prazeres mais diversos: gastronômicos, estéticos, olfativos, auditivos, sensuais e outros. Ao mesmo tempo que o sono começa a afetar, é a época de realizar, de aproveitar a energia do Sol que é despejada sobre os bruxos.
À primeira vista, não se percebe o quanto dois sabates tão malquistos pela Igreja foram assimilados por ela, mas os elementos em comum são tão evidentes que não há como contestar o fato. Ao longo do mês de junho e julho ocorrem as Festas Juninas, homenageando-se São João e Santo Antônio. Acende-se uma fogueira, como a de Beltane, dança-se ao redor dela, como em Beltane, se celebra o "casamento na roça" em honra a Santo Antônio, assim como os bruxos realizam a união carnal em espaços abertos em Beltane, as danças de São João são de mãos dadas, assim como também o é a dança das BRUXAS ao redor da fogueira, muitas das comidas típicas das festas juninas são à base de farinha de milho, além do próprio milho cozido, sendo este um alimento tido como solar por todas as tradições esotéricas. Não podemos deixar de notar, ainda, que a Semana Santa se comemora também neste período (entre maio e junho), e assim como o Natal representa o nascimento de Jesus e a Semana Santa comemora sua plenitude e crucificação, a Festa do Inverno comemora o nascimento do Sol e a Festa do Sol sua plenitude e queda.
Dentro da Semana Santa, Corpus Christi representa sua presença entre nós na eucaristia. A Festa do Sol não fala da hóstia, mas partilha o pão como manifestação do Deus na Terra.
Onde a Igreja silenciou, permaneceram nas tradições locais, aparentemente desvinculadas de significado religioso, práticas como a de pular a fogueira. Para os pagãos, o significado é muito claro: pula-se a fogueira para se purificar e para afastar de si todo o mal que esteja no encalço.
Restaram, também na tradição popular, algumas variedades da dança das fitas que compõe o cerne das comemorações diurnas de Beltane, com a participação de crianças ou de jovens. Eleva-se um mastro, chamado pelos pagãos de mastro de maio, que simboliza o falo do próprio Deus. Em seu topo são amarradas fitas coloridas cujas pontas são seguradas por JOVENS ou crianças e que, à medida que evolui a dança ao redor do mastro, se cruzam e se descruzam, acabando por formar uma trama que envolve e aperta o mastro, simbolizando o órgão sexual da Deusa abraçando o falo divino. Apesar de toda a dificuldade da Igreja em assimilar ritos de fertilidade como estes, os RITUAIS foram quase integralmente preservados, apenas caindo no esquecimento seu significado original pagão.
Assim como a Festa do Sol é o ponto de poder máximo do Sol, é também a partir deste dia que suas forças começam a declinar. Isto só passa a ser notado no sabate seguinte, Festa da Cornucópia (Lammas, na tradição celta), que se realiza em 1º de agosto no hemisfério norte.
Por outro lado, a Festa da Cornucópia e a Festa das Graças (equinócio de outono) são marcadas pela abundância de alimentos provenientes das respectivas safras. Embora não exista um festival cristão que corresponda a tais sabates, existe uma comemoração relativamente recente que caiu nas boas graças da Igreja onde os sentimentos evocados são exatamente os mesmos dos destes dois sabates, em especial a Festa das Graças. Nos referimos ao Dia de Ação de Graças, ocasião em que, diante de uma mesa farta, agradecemos a fartura e partilhamos, em família, os alimentos, considerando-os como dádivas divinas.
Apesar de a abundância ser maior na Festa da Cornucópia, o aspecto da partilha é mais marcado na Festa das Graças, que é comemorada no equinócio de outono. Todavia, como, a partir do equinócio, os dias se tornam menores que as noites, acrescenta-se neste sabate uma preocupação com os dias futuros. Os bruxos colhem o que o Sol e a TERRA lhes propiciou, mas já começam a se preparar para períodos de dificuldade. Aqui, assim como ocorre nas festas cristãs de Cosme e Damião, quem tem reservas oferece alimentos aos menos abastados.
A Festa das Graças é o último sabate da Roda do Ano. Até que chegue o Tempo dos Idos, colhem-se os frutos já pensando na vinda dos tempos difíceis. Um novo ciclo de plenitude e queda se cumpre para bruxos e cristãos, contando os quatro festivais pagãos da metade clara e diversas comemorações cristãs que abordam diferentes aspectos dos mesmos sentimentos evocados pelos bruxos.
Beltane - Festas Juninas
Festa do Sol - Semana Santa
Festa da Cornucópia - Ação de Graças
Festa das Graças - Ação de Graças e S. Cosme e S. Damião
Mas os pontos em comum entre as práticas BRUXAS e as práticas cristãs vão muito além dos festivais.
No próximo segmento, apontaremos exemplos de como os cristãos, incluindo sacerdotes, realizam, sob as bênçãos da Igreja, práticas como a magia, que o senso comum, erroneamente, atribui exclusivamente a pagãos e, em especial, a bruxos.